Paralisação Revela Descontentamento Geral
No dia 9 de abril, educadores e alunos das redes estadual e municipal do Rio de Janeiro se mobilizaram em um dia de protestos pelo centro da cidade. A manifestação, marcada por um forte engajamento, causou o fechamento da Avenida Francisco Bicalho, na Leopoldina, gerando congestionamentos nas principais vias que dão acesso à região metropolitana, incluindo a Avenida Brasil e a Ponte Rio-Niterói. Os trabalhadores exigem a recomposição de seus salários, em consonância com o Piso Nacional do Magistério, além de reivindicações que, segundo eles, vêm sendo ignoradas pelo governo.
Os dados sobre a defasagem salarial são alarmantes. Um estudo realizado pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a pedido do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (Sepe), revelou que os profissionais da educação municipal enfrentam uma perda salarial de 19,40% desde março de 2019, com um reajuste de 24,07% necessário a partir de janeiro de 2026 para compensar as perdas segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA-IBGE). Além disso, as pautas de reivindicação incluem o fim da “minutagem” (horas extras não remuneradas) e a implementação do 14º salário, referente ao Acordo de Resultados 2024.
Reivindicações em Destaque na Rede Estadual
Na rede estadual, a situação é igualmente preocupante. Para restaurar as perdas salariais desde 2014, seria necessário um ajuste de 56,74% a partir de janeiro de 2026, conforme o IPCA-IBGE. Embora tenha havido um acordo em 2021, que previa um aumento de 26,5% em três etapas, apenas 13,5% desse aumento foi efetivamente pago, evidenciando a desconexão entre promessas políticas e a realidade enfrentada pelos educadores. Além da recomposição salarial, os profissionais exigem a efetivação do piso nacional do magistério.
Manifestação Cativa a Atenção Geral
No período da manhã, a manifestação organizada em assembleia pelo Sepe Regional III e IV interditou a Avenida Francisco Bicalho, nas proximidades do Viaduto do Gasômetro, em direção ao Centro do Rio. Aproximadamente 50 manifestantes, com bandeiras e faixas, entoaram gritos como “Trabalhador, olha pra cá. Eu tô na rua pro seu filho estudar!” e “Ôooo Educação Parou!”, marchando até a sede da Prefeitura do Rio de Janeiro, localizada no Estácio, e bloqueando também a Avenida Presidente Vargas.
O protesto atraiu muitos olhares curiosos e a mensagem dos trabalhadores foi amplamente divulgada, mesmo por veículos de comunicação que geralmente ignoram as demandas populares. Em uma entrevista ao AND, uma das manifestantes destacou a relevância de ações combativas: “Dada a inércia de parte da direção do SEPE, precisamos nos unir através das regionais para que atos mais contundentes aconteçam, caso contrário, nossas pautas não alcançam a população”. Ela ressaltou a gravidade da situação e a necessidade de visibilidade para as demandas dos trabalhadores.
Conflito com a Policia e Unificação dos Atos
Embora o protesto tenha ocorrido de maneira pacífica, um episódio envolvendo um policial que se dirigiu a um manifestante em tom ameaçador destacou a tensão que permeava o evento. Além disso, os trabalhadores da educação se reuniram após a manifestação para planejar um ato na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Apesar de um desvio de parte da direção, a unificação dos atos foi aprovada, refletindo a vontade de luta entre os trabalhadores.
A participação ativa da categoria foi evidenciada, mesmo diante da pressão de agentes de repressão, como a Polícia Militar. Cerca de 200 manifestantes ocuparam a Avenida Nilo Peçanha, entoando slogans que contestavam a destinação de verbas públicas: “Que contradição! Tem dinheiro pra polícia, mas não tem pra educação!”.
Vozes do Protesto
Entre os manifestantes, Ângela Macedo, aluna da Educação de Jovens e Adultos (EJA), expressou sua indignação sobre as condições precárias de sua escola, que não possui água nos bebedouros e teve seus recursos de merenda reduzidos. Ela criticou a visão pedagógica atual e enfatizou a importância de lutar por melhorias reais na educação. “Sair da ignorância é deixar de ser massa de manobra”, afirmou, reiterando a necessidade de consciência política entre os estudantes.
Outro participante celebrou a mobilização, caracterizando-a como um retorno da presença popular nas ruas. O clima de descontentamento se intensifica na medida em que os trabalhadores da educação se opõem a políticas que ameaçam a qualidade do ensino público e a valorização dos profissionais da área.
O ato se encerrou em meio a discussões sobre a necessidade de uma nova paralisação, agendada para o dia 5 de maio, mostrando que a luta por melhores condições e direitos trabalhistas está longe de acabar.

