Impacto da Decisão do STF nas contas públicas do Rio
Uma importante decisão a ser tomada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) poderá moldar o futuro financeiro do Estado do Rio de Janeiro e de algumas prefeituras fluminenses. A questão gira em torno das regras de distribuição das taxas governamentais sobre a produção de petróleo e gás — royalties e participações especiais (PE). De acordo com autoridades e especialistas, essa mudança pode comprometer a operacionalização das máquinas públicas, resultando em uma perda de até R$ 21 bilhões anuais, conforme apontam as projeções.
O julgamento está agendado para a próxima quarta-feira em Brasília. Atualmente, a distribuição dos recursos favorece a União e os estados e municípios produtores. O Rio de Janeiro, sendo o maior produtor nacional, representa 88% do petróleo e 77% do gás extraído no Brasil em 2025, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Para o governo estadual, essas taxas são responsáveis por aproximadamente 25% da receita líquida, tendo arrecadado R$ 26 bilhões no ano passado.
Serviços Públicos Sob Ameaça
As projeções para 2023 indicam que o Rio deverá arrecadar R$ 28,4 bilhões, mas caso a nova legislação de 2012 estivesse em vigor, esse montante poderia cair para R$ 18,5 bilhões. A apresentação da Secretaria de Estado de Fazenda (Sefaz) revelou que, em média, até 2032, a perda anual chamada de ‘impacto fiscal’ pode chegar a R$ 9 bilhões, representando 9,3% da receita líquida total.
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O Orçamento deste ano já previa um déficit de R$ 19 bilhões nas contas estaduais e para 2027, o projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) sinaliza um rombo de R$ 13 bilhões. O governo interino, sob a liderança do desembargador Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), vem promovendo cortes em cargos comissionados e revisão de contratos, mas especialistas acreditam que isso não será suficiente.
Durante uma reunião na seccional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ), o governador interino enfatizou a relevância das taxas sobre o petróleo, conforme registrado em uma nota emitida pela entidade. O ex-secretário de Estado de Fazenda, Juliano Pasqual, destacou que essa receita é crucial para aquisição de equipamentos de segurança pública, como coletes à prova de balas.
Consequências para Municípios e Indústria
Os recursos provenientes de royalties e participações especiais são considerados “carimbados”, ou seja, eles têm destinação obrigatória, visando custear a folha de pagamento de servidores inativos no Rioprevidência e outros fundos setoriais. Luiz Césio Caetano, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), advertiu que a falta desses recursos pode inviabilizar a oferta de serviços públicos essenciais como saúde e educação.
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Um estudo da Firjan estima que, se as novas regras de distribuição forem implementadas, o governo estadual poderá perder R$ 8 bilhões anualmente, enquanto as prefeituras fluminenses enfrentariam uma redução de R$ 13 bilhões. Em municípios como Arraial do Cabo e Carapebus, a dependência em relação aos royalties é ainda mais acentuada, com 70% e 55% das receitas, respectivamente, provenientes desse recurso.
Implicações para o PIB e Mercado de Trabalho
De acordo com a Fecomércio RJ, a redução no financiamento dos serviços públicos pode ocasionar uma perda de R$ 20 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB) do Rio, elevando o risco de fechamento de até 311 mil empregos. Antônio Florêncio Queiroz, presidente da Fecomércio, sublinhou que o desenvolvimento da exploração de petróleo e gás em determinada localidade tende a atrair trabalhadores, o que, por sua vez, aumenta a demanda por serviços públicos.
Paulo Hartung, ex-governador do Espírito Santo, alertou que a perda de receitas pode dificultar a capacidade do futuro governador, que assumirá em 2027, de ajustar as contas públicas. “Esse dinheiro resolverá a vida de alguém? Não. O Rio não conseguirá sobreviver sem esse recurso”, ponderou.
Um Cenário de Crise Estrutural
O economista Mauro Osório, professor da UFRJ e especialista em economia regional fluminense, afirmou que o Rio tem uma oportunidade de reavaliar sua gestão a partir de 2027, embora a crise estrutural que começou na década de 1980 ainda persista. As derrotas no pacto federativo e a escassez de liderança política são fatores que agravam a situação atual do estado.
Historicamente, o princípio de compensar estados e municípios produtores remonta à década de 1950, mas a legislação de 2012 alterou essa dinâmica, resultando em uma distribuição menos favorável aos entes federativos que efetivamente produzem. A interpretação do STF sobre a Constituição, que garante direitos de arrecadação aos estados e municípios baseados nas atividades em seus territórios, será crucial para o desfecho desse impasse.
Enquanto o debate avança, economistas refletem sobre a necessidade de um modelo mais eficiente de arrecadação que não penalize as regiões produtoras, considerando o futuro do Rio e suas comunidades. O que está em jogo são não apenas números e projeções, mas a qualidade de vida da população carioca e fluminense.

