Análise das Implicações Financeiras
As projeções financeiras para o ano de 2024 indicam uma arrecadação de R$ 28,4 bilhões em royalties no Rio de Janeiro. Contudo, se as novas diretrizes estabelecidas pela legislação de 2012 já estivessem em vigor, esse valor despencaria para R$ 18,5 bilhões, conforme exposto pela Secretaria da Fazenda (Sefaz) em uma reunião na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). A previsão de queda na arrecadação é alarmante: a média anual até 2032 pode chegar a uma perda de R$ 9 bilhões, o que representa 9,3% da receita líquida total do estado.
O cenário fiscal já é desafiador, com o Orçamento deste ano prevendo um déficit de R$ 19 bilhões nas contas estaduais. A projeção para 2027, delineada no projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO), aponta para um rombo ainda maior, estimado em R$ 13 bilhões. Em resposta a essas dificuldades, o governo interino, liderado pelo desembargador Ricardo Couto, atual presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), tem implementado cortes em cargos comissionados e reavaliações de contratos, embora tais medidas sejam insuficientes para sanar a crise.
O Papel dos Royalties e a Segurança Pública
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Durante uma reunião na seccional da Ordem dos Advogados do Brasil do Rio de Janeiro (OAB-RJ), realizada na última segunda-feira, o governador interino enfatizou a importância das taxas sobre o petróleo. “Esses valores são cruciais”, destacou, conforme nota divulgada pela entidade. Embora Couto tenha sido consultado pela assessoria do TJRJ, não houve comentários sobre a situação das contas estaduais até o fechamento desta edição.
Na véspera de sua exoneração, o ex-secretário de Fazenda, Juliano Pasqual, salientou a necessidade desses recursos para a aquisição de equipamentos de segurança, como coletes à prova de balas, e para a renovação do armamento da polícia. Já o novo secretário de Fazenda, Guilherme Mercês, reafirmou em entrevista à rádio CBN que a arrecadação proveniente dos royalties é essencial para a manutenção e melhoria da segurança pública.
Impacto nas Prefeituras e a Nova Regra de Distribuição
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Um estudo recente indica que as novas regras de distribuição podem causar uma perda de arrecadação anual significativa: R$ 8 bilhões a menos para o governo estadual e R$ 13 bilhões para as prefeituras do estado, conforme um manifesto conjunto da Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ) e da Fecomércio RJ. Nesse contexto, é preocupante notar que em várias prefeituras, os royalties e participações especiais representam uma fatia ainda maior da receita em comparação com o governo estadual. Por exemplo, em Arraial do Cabo, que possui cerca de 33 mil habitantes, 70% da receita em 2025 virá de royalties, enquanto em Carapebus, com 14 mil habitantes, esse percentual é de 55%.
A Crise Estrutural e a Oportunidade de Mudança
De acordo com Mauro Osório, economista e professor da UFRJ, o estado do Rio de Janeiro possui uma “oportunidade” de reverter sua trajetória econômica, especialmente com uma nova gestão a partir de 2027. Ele argumenta que o estado enfrenta uma “crise estrutural” desde a década de 1980, caracterizada pela falta de liderança política e por endividamentos resultantes de um pacto federativo deficitário. Essa situação é agravada pela ausência de compensações financeiras desde que a cidade deixou de ser a capital federal, em 1960, e pela forma como o ICMS sobre petróleo é distribuído, onde a arrecadação fica com os estados consumidores, em vez de ser revertida para os estados produtores.
A estrutura de remuneração dos estados e municípios produtores de petróleo foi estabelecida desde a década de 1950. No entanto, com a lei de 2012, houve uma mudança que reduziu a parcela destinada aos estados e municípios produtores, distribuindo os recursos de maneira mais ampla entre todos os entes federativos. Este modelo, de acordo com as críticas, é considerado inconstitucional, uma vez que contraria o que está previsto na Constituição, que assegura o direito dos estados e municípios de receber compensações pela exploração de recursos em seu território.
Reflexões sobre a Gestão dos Royalties
A discussão sobre a distribuição dos royalties levanta questões importantes sobre a gestão fiscal no Brasil. Segundo Sérgio Gobetti, assessor da Secretaria da Fazenda do Rio Grande do Sul e pesquisador do Ipea, em muitos países, as taxas são vistas como uma reserva financeira para futuros períodos de escassez de recursos naturais. Gobetti observa que no Brasil, a prática de direcionar royalties às prefeituras é única. Ele acredita que esse modelo pode levar a uma concentração de recursos de maneira ineficiente, como evidenciado por iniciativas em cidades como Maricá, que tem investido em programas sociais com fundos oriundos do petróleo, levantando questões sobre a localização e a lógica por trás de tais investimentos, especialmente quando a extração ocorre a grandes distâncias.

