Um troféu de guerra que carrega disputas até hoje
Durante a Guerra do Paraguai, um dos conflitos mais sangrentos da América do Sul, o Brasil conquistou diversos troféus, entre eles o canhão conhecido como Cristiano, que está exposto no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, desde 1922. Esta peça, um obuseiro de 12 toneladas, foi fabricada a partir do bronze de sinos de igrejas paraguaias, o que lhe confere um significado simbólico profundo para ambos os países.
O canhão mede 2,94 metros de comprimento por 1,34 metro de largura e seu nome, Cristiano, vem do espanhol, significando “cristão”. Uma inscrição na peça traz a frase “A religião ao Estado”, referência à origem do material que compõe a arma. Apesar de ser um dos artefatos mais visitados no museu carioca, o seu retorno ao Paraguai tem sido motivo de tensão diplomática há décadas.
Contexto histórico e as raízes do conflito
O Paraguai, governado pelo presidente Francisco Solano López, enfrentou o Brasil, Argentina e Uruguai na chamada Guerra da Tríplice Aliança, entre 1864 e 1870. O conflito começou com disputas políticas e econômicas na região da Bacia do Prata, envolvendo o controle de rotas comerciais e a instabilidade política no Uruguai e Argentina. O Paraguai, sem acesso ao mar, buscava se firmar como potência regional, o que culminou em uma série de invasões e confrontos armados.
Apesar do exército paraguaio possuir um contingente inicial de 64 mil soldados, o país enfrentou um desgaste severo durante os anos de conflito. A batalha pela Fortaleza de Humaitá foi um dos pontos críticos do embate, prolongando a guerra por anos e causando a perda de cerca de 480 mil vidas. Em 1868, os aliados tomaram Assunção, e, um ano depois, Solano López foi morto na batalha de Cerro Corá, encerrando a guerra.
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O simbolismo do canhão e a controvérsia sobre sua devolução
O canhão Cristiano representa muito mais que um troféu de guerra; ele simboliza para o Paraguai uma derrota profunda e a perda de seu território e população. Desde o fim da guerra, o Paraguai tem solicitado a devolução da peça, especialmente durante os governos de Lula e Dilma, quando as negociações chegaram a avançar, mas depois estagnaram.
Em 2023, com a eleição do presidente Santiago Peña, o tema voltou à tona com vigor, especialmente após declarações do presidente Lula sobre a invasão paraguaia ao Brasil, que causaram desconforto entre autoridades paraguaias. O vice-presidente paraguaio reiterou o pedido pela devolução do canhão e de outros artefatos históricos, reacendendo o debate diplomático.
Aspectos legais e culturais que dificultam a repatriação
Do ponto de vista jurídico, o Brasil não tem obrigação formal de devolver o canhão Cristiano. Além disso, a peça foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o que torna sua saída do país um processo complexo. Pesquisas indicam que o pedido paraguaio não se limita à origem religiosa do material, mas ao papel do canhão como testemunho da derrota do Paraguai na guerra.
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Alguns especialistas ressaltam que o isolamento do Paraguai durante o conflito limitou o acesso a matérias-primas, e que outros canhões foram fundidos com bronze de sinos, muitos dos quais já foram devolvidos. No entanto, a importância simbólica do Cristiano mantém o debate aceso. Internamente, no Paraguai, há opiniões divergentes quanto à repatriação da peça, com parcela da população preferindo que o canhão permaneça no Rio de Janeiro.
O legado da Guerra do Paraguai e suas consequências para a região
A Guerra do Paraguai deixou marcas profundas na América do Sul, devastando o Paraguai e alterando as fronteiras nacionais. O conflito, que durou seis anos, resultou na morte de cerca de 480 mil pessoas e na perda de quase 25% do território paraguaio. A instabilidade política prolongada no país só começou a se estabilizar no século XX, com eleições democráticas ocorrendo apenas em 1993.
Além da devastação humana e territorial, a guerra impactou a memória coletiva dos envolvidos. O canhão Cristiano, como símbolo físico desse episódio, permanece como um ponto de tensão diplomática e uma lembrança histórica que ainda influencia as relações entre Brasil e Paraguai.

