Resíduos de Cocaína e Contaminantes em Espécies Marinhas
Um estudo recente revelou a presença de resíduos de cocaína em tubarões e raias capturados na costa da zona Oeste do Rio de Janeiro, especificamente na região do Recreio dos Bandeirantes. Além da droga, foram identificadas outras substâncias classificadas como Contaminantes de Preocupação Emergente (CEC, na sigla em inglês), que incluem antibióticos, anti-inflamatórios, pesticidas e outras substâncias ilícitas. Essas substâncias não são monitoradas, apesar dos riscos que oferecem tanto para a saúde marinha quanto para a humana, conforme destaca o artigo publicado no último dia 18 de junho na revista norte-americana Science Direct pelo Laboratório de Avaliação e Promoção de Saúde Ambiental da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).
Urbanização e Pressão Sobre o Ecossistema Costeiro
O estudo relaciona a contaminação com o crescimento urbano acelerado do bairro do Recreio dos Bandeirantes, que passou de uma área costeira isolada para um bairro suburbano com condomínios residenciais, infraestrutura comercial e redes viárias que alteram a paisagem local e aumentam a pressão sobre os ecossistemas costeiros. Apesar dessa expansão, a comunidade de pescadores artesanais permanece ativa, utilizando a pesca com redes em águas próximas à costa.
As análises envolveram amostras de fígado, cérebro e músculos de tubarões e raias, com destaque para as espécies jovens de raia-borboleta (Gymnura altavela) e tubarão-martelo (Sphyrna lewini e Sphyrna zygaena). Uma raia G. altavela apresentou a maior diversidade de contaminantes, incluindo benzoilecgonina — principal metabólito da cocaína —, além de diclofenaco, sulfametoxazol, fipronil e piroxicam.
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Indícios de Exposição Recente ao Esgoto
A presença conjunta de cocaína e benzoilecgonina sugere uma exposição recente a esgoto não tratado. Em algumas raias, os níveis de cocaína foram superiores aos do metabólito, indicando uma exposição contínua ou recente ao despejo de esgoto. O estudo destaca que essa contaminação pode estar associada ao despejo de efluentes tratados na Barra da Tijuca e à urbanização crescente no Recreio dos Bandeirantes.
Embora as quantidades encontradas sejam pequenas, a identificação dessas substâncias é preocupante, pois todas são de origem antropogênica e não deveriam estar presentes nos organismos marinhos. Essa descoberta adiciona uma nova camada de preocupação às ameaças já existentes para essas espécies, que incluem degradação do habitat, desenvolvimento costeiro e captura acidental na pesca.
Contexto e Perspectivas do Estudo
O estudo foi realizado com espécimes doados por pescadores artesanais entre 2021 e 2023. Todas as espécies analisadas são consideradas em perigo, criticamente em perigo ou vulneráveis pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). A pesquisa foi conduzida por uma equipe multidisciplinar, incluindo Rachel Ann Hauser-Davis, do Laboratório de Avaliação e Promoção da Saúde Ambiental da Fiocruz; Rodrigo Hoff, do Setor Laboratorial Avançado em Santa Catarina; Mónica Alejandra Herrera Agudelo, da Universidade Andres Bello, no Chile; Marcelo Vianna, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); e Enrico Mendes Saggioro, do AquaRio.
Os pesquisadores ressaltam que, apesar do número limitado de espécimes analisados, os dados já indicam a necessidade de monitoramento e políticas públicas para proteger o ecossistema marinho da costa do Rio de Janeiro, especialmente diante da crescente urbanização e do impacto humano na região.

